Três dias após ter deixado o comando do Guarani, Umberto Louzer resolveu abrir o jogo. Em entrevista coletiva concedida em um hotel em Campinas na tarde desta sexta-feira, o técnico que dirigiu o clube durante 54 dos 56 jogos da temporada falou sobre sua trajetória no Brinco de Ouro. O profissional confirmou o impacto negativo do assunto cogestão do futebol, revelou uma tentativa de interferência durante reunião com um dos potenciais parceiros e externou insatisfação pela forma como foi conduzida sua saída da equipe, onde, com um aproveitamento de 54,3%, conquistou o acesso e o título da Série A2 do Campeonato Paulista.
Antes de responder às perguntas dos jornalistas, Louzer fez um pronunciamento em que esclareceu alguns pontos polêmicos que nortearam sua passagem. Primeiro, falou sobre as tentativas de interferência nas escalações.
“Já falei em outra oportunidade o compromisso moral que tenho comigo, minha família, minha profissão, o clube e os torcedores. Jamais eu daria oportunidade para isso acontecer. Houve uma tentativa, mas de imediato isso foi estancado. Não houve e nunca vai haver enquanto o Umberto trabalhar em qualquer equipe”, garantiu.
Antes de voltar a esse tema, o ex-técnico bugrino comentou sobre o impacto negativo da questão política dentro do grupo.
“Isso é fato, é até relato de atletas. Ele precisa ter confiança e segurança em seu ambiente de trabalho para que possa ir a campo e desenvolver seu melhor futebol. Entendo as necessidades do clube, mas na minha opinião essa parte da cogestão aconteceu em um momento muito delicado. A gente precisava dessa arrancada em busca do objetivo maior”.
A forma como foi conduzida sua demissão também incomodou. Na terça-feira, assim que a diretoria definiu as saídas do superintendente de futebol Luciano Dias, do auxiliar Caio Autuori e do preparador físico Felipe Celia, Louzer foi comunicado que poderia dirigir o time nos últimos dois jogos, mas já procurar um novo clube. Caso não arrumasse outro emprego, teria a possibilidade de seguir, mas voltando a ser auxiliar.
“Me pegou muito de surpresa a maneira que fui demitido porque a gente já vinha conversando sobre planejamento para 2019. Até foi um relato do presidente em algumas entrevistas. O Luciano estava com nomes de jogadores para tentar renovações e conversas para detectar e encontrar carências e ter uma equipe forte e competitiva para a disputa do Paulistão. Foi feita uma reunião em que fomos chamados e desligados esses três profissionais (Luciano, Caio e Felipe). Foi feito o pedido para eu fazer os dois jogos finais, mas sabedor que não daria continuidade no ano seguinte. Eu podia contatar clubes para me engajar em outro projeto e, caso não acontecesse, eu podia ocupar o cargo de auxiliar fixo. Agradeci, mas não tenho a pretensão de permanecer como auxiliar e não teria como eu continuar no clube me dedicando 100% como sempre fiz”.
Louzer voltou a comentar sobre a suposta interferência realizada em seu trabalho. Ele confidenciou que teve encontros com Nenê Zini e Roberto Graziano e que, durante uma reunião na Magnum, recebeu ‘indagações’ sobre as escolhas que fazia.
“Sentei com o presidente no escritório do Nenê para traçar o planejamento para 2018 e, há duas semanas, fui convidado a ir a Magnum também através do presidente. Também estava presente o Lucas Andrino (atualmente agente de futebol), o Roberto Graziano (presidente da Magnum) e o Assis (membro do Conselho de Administração do Guarani). Minha ideia era ir até lá para conversar sobre planejamento, mas chegando lá aconteceu uma coisa que me deixou decepcionado, que foi o questionamento em relação às minhas escalações. Deixei bem claro como o Umberto trabalha, fiz o relato de como iniciei minha carreira. Não vou ceder a nenhum tipo de interferência ou algo que venha de não forma não ética. Explantei minha situação, mas não comentamos sobre futebol”, disse o treinador.
Umberto Louzer também respondeu a uma série de questionamentos envolvendo esses mais de 11 meses no comando do Guarani, principalmente relacionados a essa reta final de Série B do Brasileiro. Acompanhe abaixo os principais trechos.
COMO A COGESTÃO ATRAPALHOU?
A forma como foi conduzida e o momento da cogestão atrapalharam. Isso é fato. Atletas se sentiram inseguros com esse relato pois não sabem o panorama do clube no ano seguinte. Alguns atletas que seriam procurados para renovação, o planejamento que estava sendo estudado. Foi um dos fatores que desencadearam essa queda de desempenho.
EMPRESÁRIOS TENTARAM IMPOR A ENTRADA DE ALGUM ATLETA?
O único questionamento que fizeram eras as minhas escolhas em relação a outros atletas. Trabalho com coerência e expliquei a forma com que trabalho, por que um atleta é preferido para entrar e outros não. Trabalho com minhas convicções e ideias. Sou em que participo do dia a dia e vou ser julgado pelas minhas escolhas. Deixei claro isso. Uma rodada antes do Avaí (jogo contra o Boa Esporte) foi feito esse pedido, o Luciano chegou a mim para levar atleta A ou B, mas de imediato foi negado. Saio com a consciência tranquila, sabedor de que fiz meu melhor. Muitas vezes acertei, outras errei, mas sempre com minhas convicções.
ATRASO SALARIAL ANTES DO JOGO CONTRA O SÃO BENTO
Houve sim essa situação. O presidente até ficou aqui para fazer os procedimentos na Justiça do Trabalho. A gente ia jogar na sexta, foi prometido o pagamento na quinta e isso não foi acordado. Acabou sendo pago no outro dia, mas gerou insatisfação dos atletas. Tivemos que gerir, acalmá-los, mas de fato aconteceu.
AUSÊNCIA DO ATACANTE BRUNO MENDES NOS ÚLTIMOS JOGOS
Acredito muito no caráter do Bruno, é um menino que eu gosto muito. Acredito também nos profissionais do departamento médico. Na minha opinião, não houve nenhum tipo de interferência. Se ele não conseguiu retornar, creio eu que seja por motivo clínico. Por acreditar nos profissionais de fisiologia, fisioterapia e por acreditar no profissional e no homem Bruno Mendes.
QUEDA DE RENDIMENTO DO TIME NO MOMENTO DECISIVO
Tentamos blindar da questão política, mas acabou entrando. Foi um fator que prejudicou sim. Diminuímos nosso rendimento em campo, mas não estamos aqui para jogar a culpa só na parte política. Também temos nossa responsabilidade, mas essa parte foi um fator importante para desencadear. A gente precisava dessa unidade, todo mundo na mesma sintonia. Acabou desfocando um pouco mais do campo de jogo.
FALTA DE UNIÃO EM TODOS OS SETORES DO CLUBE NA BUSCA PELO ACESSO
Era um momento de união de todos. Até fiz uma reunião antes do jogo do Avaí. A gente ia jogar uma final de Copa do Mundo e naquele momento todo mundo precisava ser mais proativo, dar o algo a mais. Estávamos próximos de um ano mágico. Para o Umberto, com um ano de trabalho ter título e acesso à primeira divisão ia abrir um mercado gigantesco. O Guarani daria um salto com recursos que seriam muito importantes. Saio feliz, mas como profissional altamente competitivo quero mais.
JOGADORES AGENCIADOS POR DETERMINADOS EMPRESÁRIOS TIRARAM O PÉ?
Não posso afirmar se há esse tipo de interferência, mas o relato dos atletas posso falar. Gera essa insegurança. São dois grupos e empresários com atletas no clube. Não sei o tipo de relacionamento dos empresários com os atletas. Até valores que cada um recebe só fiquei sabendo agora, no planejamento para o ano que vem. Não queria entrar nesses detalhes. Minha parte é mais no campo, mas é um fato. Quando há esse tipo de situação, gera essa instabilidade. Em certo momento, vai afetar o rendimento. Por isso, em certo ponto e pelo momento em que foi desenhada, a cogestão atrapalhou.
SENTIMENTO COM TUDO O QUE VIVEU NO CLUBE
No ano passado, faltando 45 dias para terminar a Série B, falei para minha esposa que tinha de fazer de tudo para não deixar o Guarani cair. Pedi compreensão, abri mão da minha família e conseguimos no livrar. Nesse ano, a mesma coisa. Precisava de muito mais porque era algo que ficaria marcado na minha carreira. Passei como atleta, auxiliar, vivi muito o ambiente do Guarani. A gente até se emociona pois faz uma retrospectiva de tudo que viveu lá dentro e a forma que sai. Isso me deixou muito descontente, mas é um aprendizado enorme que vou levar pra vida. Saio de coração aliviado de ter feito tudo que fiz para que o Guarani saísse ainda maior. Triste por não ter retribuído todo o carinho que recebi da torcida, mas com consciência tranquila de deixar o Guarani numa condição muito maior do que peguei. Nos próximos anos isso vai me fazer mais forte ainda e me tornar um profissional melhor. Espero ainda voltar e dar um título a essa torcida que me abraçou de forma tão mágica.