Tirar os méritos do Figueirense por ter sido eficiente, marcado três gols fora de casa e ter conquistado a vitória dentro do Brinco de Ouro não seria justo, mas é possível dizer que o Guarani facilitou e muito a missão da equipe catarinense. O Bugre se empenhou bastante, mas a cada vez que mostrava poder de reação vinha uma falha decisiva para atrapalhar. Com esses erros além da conta e alguns ‘velhos vícios’, o time acabou sofrendo a segunda derrota em casa na Série B.
Havia muita expectativa se, com a escalação repetida pela terceira vez consecutiva, o Guarani também manteria o padrão dos outros jogos, com uma postura mais reativa e sem tanto controle. Só que, assim como as circunstâncias direcionaram o que foram as partidas contra Oeste e Coritiba, elas também foram as responsáveis por definir a maneira como o duelo da noite de terça-feira se desenhou.
Nos dois compromissos anteriores, o Alviverde esteve na frente do marcador, forçou os adversários a se exporem e teve a oportunidade de ser mais conservador. Dessa vez, porém, foi a equipe bugrina quem teve que correr atrás do placar praticamente o tempo todo e no segundo tempo sofreu exatamente o que seus últimos rivais haviam passado.
O primeiro tempo foi marcado pela alta intensidade. Os dois times praticamente dividiram posse de bola (51% a 49% favorável ao Figueirense) e foram parecidos em passes certos (183 a 165 para o Guarani). Houve, porém, uma coisa que os diferenciou: a eficácia. Na etapa inicial, os catarinenses finalizaram quatro vezes. Desse total, três foram em direção ao gol – duas morreram no fundo da rede e uma parou na trave. Já o Bugre teve dez tentativas, sendo quatro certas e marcou seus dois gols.
O detalhe nas chances criadas pelos visitantes, porém, é o fato de que em todas elas houve uma falha dos bugrinos. No primeiro gol, Trevisan aproveitou a cobrança de escanteio e teve facilidade para subir e marcar. No segundo, vale destacar a linda triangulação entre Renan Mota, Henan e Ferrareis, mas teria sido apenas uma bela troca de passes se Oliveira não tivesse aceitado uma bola que foi em cima dele. Por fim, num escanteio para o Guarani, quase o Figueirense fez outro quando ninguém matou o contra-ataque e Henan acertou o poste.
Se os erros foram grosseiros, no primeiro tempo o Guarani ainda teve calma e alguma qualidade para reagir. Trabalhando bastante pelas beiradas – teve 40% da posse de bola pelo lado esquerdo, 36% pelo lado direito e apenas 24% na faixa central na etapa inicial -, conseguiu marcar em jogadas originadas pelos lados – primeiro com Rafael Longuine aproveitando rebote em jogada que começou com Pará e depois com Matheus Oliveira após ótimo passe de Kevin.
A partida era aberta, bem jogada e havia se tornado imprevisível pela forma com que se comportavam as equipes. A dúvida era se o Guarani conseguiria manter o volume para alcançar a virada ou o Figueirense, com sua postura de jogar no erro adversário, sobretudo em contra-ataques, seria capaz de suportar a pressão e buscar algo a mais.
Bastaram 12 minutos do segundo tempo para que essa dúvida fosse respondida. Numa noite em que errou demais, o Bugre teve a infelicidade de encontrar um rival numa jornada extremamente eficiente. Quando Renan Mota fez um passe que nem parecia tão perigoso, Edson Silva e Éverton Alemão protagonizaram um show de horrores aproveitado por Henan. Na única, ÚNICA finalização que teve no segundo tempo, o Figueirense marcava o terceiro.
Depois de batalhar para buscar o empate duas vezes e sofrer com problemas individuais, o Bugre viu o trabalho coletivo parar de funcionar de vez após o 3 a 2. O time catarinense baixou completamente suas linhas, esperou lá atrás e deu, até a intermediária, campo para o Alviverde jogar. Nunca na Série B o Guarani havia ficado tanto com a redonda nos pés. O time bateu seu recorde de passes (450) num jogo e ficou quase 65% do tempo com a posse de bola após o intervalo.
Havia só um problema. De nada adianta você ter a bola se não sabe o que fazer com ela. E em momento algum desde que voltou a ficar em desvantagem os donos da casa conseguiram articular uma grande jogada capaz de alterar o roteiro do jogo.
A estratégia bugrina se baseou em dois aspectos. Com algum espaço para trabalhar a bola, os volantes Ricardinho (75 passes certos) e Willian Oliveira (62 passes certos) tinham a responsabilidade de começar a armar o jogo. No entanto, com a defesa adversária bem fechada e os meias com dificuldade para articular, a saída era ligar as laterais. E quando a bola caía nos pés de Kevin e Pará, tome cruzamento. Foram 37 o jogo inteiro, sendo 35 errados – 11 de cada lateral – no que representou o recorde da equipe neste fundamento no campeonato.
O domínio territorial era evidente, assim como a falta de organização. Precipitado, em momento algum o Guarani realmente pressionou o Figueirense a ponto de ter o empate próximo. As entradas de Rondinelly, Guilherme e Marcão pouco acrescentaram e o desespero tomou conta da equipe. Nos últimos 15 minutos, foram 10 tentativas frustradas de cruzamentos. Quando tentou trabalhar pelo chão, o Bugre foi afobado e teve nove perdas de posse no período. Não à toa, os mandantes tiveram apenas uma finalização certa no segundo tempo e numa bola fraca em que Denis fez pose para defender. Foi a chance do goleiro aparecer, já que seus defensores deram conta do recado para frear um nervoso e pouco inspirado Guarani.
Falhas individuais provocaram os três gols sofridos e um desajuste coletivo impediu que a equipe buscasse um novo empate. Como acontece com todos os outros 19 clubes que disputam a Série B, a oscilação é normal, mas o que mais deve preocupar os bugrinos são os pontos preciosos desperdiçados em casa, além de saber se sempre serão as circunstâncias que vão ditar como o time vai se portar dentro de campo.
Confira as principais estatísticas do jogo (via FootStats)
Posse de bola: Guarani 57,9% x 42,1% Figueirense
Passes certos: Guarani 450 x 280 Figueirense
Passes errados: Guarani 40 x 46 Figueirense
Finalizações certas: Guarani 5 x 4 Figueirense
Finalizações erradas: Guarani 9 x 1 Figueirense
Desarmes: Guarani 16 x 6 Figueirense
Cruzamentos: Guarani 37 x 5 Figueirense
Lançamentos: Guarani 34 x 48 Figueirense
Escanteios: Guarani 7 x 3 Figueirense
Faltas cometidas: Guarani 12 x 14 Figueirense
Rebatidas: Guarani 29 x 43 Figueirense